Quando Lúcifer caiu da glória de Deus, foi levado a uma existência sem sentido, pois a plenitude da vida não poderia ser por ele alcançada.
Às vezes vivenciamos uma existência satânica, por desconhecermos as nossas geografias existenciais e espirituais.
Podemos estar em lugares altos e cheios de títulos, mas ausentes no ser que não pode transcender, pois onde deveríamos estar, é agora habitado quer seja por outras pessoas, ou pela incerteza causadora do medo, que nos faz presentes na geografia, mas ausentes na essência. Somos apenas a aparência sem sentido, que encontra a si mesmo no lugar mais intransponível da terra: encarcerado no coração.
Creio que o tema é fascinante, pois quando se fala de Deus, somos impulsionados a descobertas, mas quando avaliamos ao diabo, a Judas, que traiu Jesus, Sansão, Caim e tantos outros que tiveram uma estória trágica, não percebemos o quanto trilhamos caminhos paralelos e quem sabe similares na mesma jornada, bastando apenas admitir que nem sempre a oração determinista dá resultados, ou fingir que a realidade é outra, pois não podemos mais enganar a nós mesmos, ao mundo e a história que já decretou o seu fim.
Possuir uma boa auto-imagem, olhar positivamente o mundo que nos rodeia é importante, acreditar que somos capazes e cheios de vigor, nos faz vencedores, principalmente quando estamos diante daquilo que fomos preparados para enfrentar. Um médico é o elemento credenciado para os problemas do corpo, um psicólogo, para a mente, mas quando tratamos de situações trágicas, ninguém mais pode resolver a situação a não ser nós mesmos, os outros podem nos amparar enquanto estamos vasculhando nas cavernas da alma, o lugar que encarceramos a nós mesmos no coração.
Fica aqui o questionamento: onde Deus está?
Seria Deus tão insensível para deixar seus filhos solitários e depressivos, presos em si mesmos sem a menor possibilidade de retorno à realidade, ou condenados, como Lúcifer, a viver para sempre separados da glória de Deus?
A loucura arrogante de se achar Deus fez o diabo cair. Será que ele pensava ser Deus realmente? Eze 28:12b (Tu eras o selo da medida, cheio de sabedoria e perfeito em formosura.)
A correção era o seu referencial, aliás, ele era o aferidor da correção, acima de qualquer suspeita, um ser que era inquestionável em seus atos e possuidor de uma beleza desejável por todos.
Eze 28:13a (Estivestes no Éden, jardim de Deus) Os lugares que Lúcifer freqüentava eram lugares freqüentados por Deus, ele guardava o jardim de Deus, era alguém que possuía sob a sua responsabilidade coisas espirituais de valores imensuráveis, dadas pelo próprio Deus.
A queda foi de alguém que estava envolvido com as coisas espirituais e era conhecido por Deus em seu trabalho e responsabilidade. Lúcifer era alguém importante, não era um desconhecido e desocupado com as coisas de Deus, possuía uma vida de atividades voltadas para Deus.
Percebemos em um dado momento que a insatisfação dominou o ser de Lúcifer e passou a fazer comércio, ou seja, fofoca contra Deus, levando com ele uma parte dos anjos a caírem do céu, contaminados pelo seu ódio, inveja e revolta. Não quero filosofar sobre os motivos de sua revolta, mas apenas me ater no fato de que a sua insatisfação foi a raiz de tudo, pois neste confronto com a soberania de Deus, ele acabou decretando a sua sentença: Eze 28:19 Todos os que te conhecem entre os povos estão espantados de ti; em grande espanto te tornaste, e nunca mais subsistirá.
Que palavras pesadas, nunca mais subsistirá! Ninguém imagina algo ruim que dure para sempre, pois sempre se espera uma mudança na estória. Esta é a visão, mesmo quando negativistas existe dentro de nós uma centelha de esperança de mudança para melhor, pois a tal lei de Murphy é engraçada de se ler, mas não de se viver.
Lúcifer foi contemplado com a lei eterna da separação de Deus, sem possibilidade de mudar a sua essência, antes de haver Deus encontrado iniqüidade nele!
Certamente nenhum de nós queria estar na situação de Lúcifer, para ele não há solução, por isto ele é o acusador, não existe nele arrependimento, pois se houvesse deixaria de acusar Deus e passaria a refletir na sua estória desgraçada e tentaria mudar alguma coisa. Não quero aqui levantar ideologias de que ele pode ser convertido, pois o texto declara que ele nunca mais subsistirá, em outras traduções, nunca mais será para sempre! Mas sim que as conseqüências desta insatisfação levaram Deus a separá-lo dos demais anjos, arcanjos, querubins e serafins. Aprendemos que rebeldia contamina e que amargura e revolta é fruto da nossa iniqüidade e não do pecado do outro. A sentença de Lúcifer embora severa, aos nossos olhos, colocaria em risco a soberania de Deus se assim não o fizesse, pois outros seres celestiais questionaram aquele que além de ser o todo poderoso, possuía todo o poder. Lúcifer colocou em cheque o governo do universo, o equilíbrio do criador e da criação.
Tamanha maldade não pode ser tratada com complacência, sendo ele um ser celestial, sem natureza terrena pecadora.
Mas quanto a nós, seres humanos, foi diferente, pois criados de forma distinta, nunca fomos amaldiçoados como Lúcifer. Com a queda do homem Deus amaldiçoou a terra e deu trabalho ao homem, e deixou para adiante um novo caminho para a árvore da vida. Deus não nos tratou como malditos, providenciou um cordeiro e cobriu o homem com veste de sangue, que simbolizavam futuramente o resgate humano, por um poder inumano, ou seja, pelo próprio Deus, na pessoa de seu filho. Nunca mais será para sempre, não pode ser a nossa meta de vida diante das desgraças, pois embora estejamos geograficamente aqui, entre os cardos e abrolhos, somos seres nascidos de Deus em espírito, habitantes do esconderijo do altíssimo, à sombra do onipotente, onde descansamos para que Deus trabalhe por nós aqui na terra.
A desgraça trágica da separação é transitória em nós, que diante das trevas nos levantamos como luz do mundo, para brilhar através das nossas obras, que de antemão Deus preparou para que andássemos nelas.
Precisamos, então nos distanciarmos da palavra satânica e entendermos que a transformação de Lúcifer, pode refletir em nossas existências apenas o tempo que deixarmos prevalecer em nossas vidas, a revolta, a rebeldia, a insatisfação, o ódio, a vingança, contra pessoas ou situações que pelo conhecimento de Deus, nos fizeram diferentes por algum tempo, daquilo que fomos criados para sermos: a imagem e semelhança de Deus.
Sejamos maduros e aprendamos nas crises, pois certamente o futuro será de paz, alegria e realizações. Precisamos transcender as paredes de nossos corações, pois nele não é lugar de se estabelecer, sendo casa de engano e perversidade, quando deixado se levar pela insatisfação.
Precisamos deixar que ele, nosso eu, morra nas masmorras do coração, retirando o seu alimento: solidão, isolacionismo, baixa estima e revolta. Precisamos deixar partir aqueles que aprisionamos, por entendermos que estão em débito conosco, aliás, dívidas que nunca serão pagas, pois estabelecemos o pagamento em função do aliviar da nossa dor, do nosso reconhecimento, da nossa satisfação.
Precisamos deixar de nos identificarmos com Lúcifer, agora Satanás, o adversário, que sabe apenas acusar e destruir aquilo que é agradável a Deus, e passarmos a viver a mente de cristo que se esvaziou de si mesmo, tomando a forma de servo e vivendo para servir. Devemos continuar a nossa caminhada após a queda, pois o perdão é o elixir revigorante, que embora tenha o sabor amargo, trará com seus efeitos a cura da alma cansada e abatida, por chorar e esperar nas asas da vingança a queda daqueles que nunca escutarão o nosso pedido de socorro, por de trás de comportamentos insanos e imprevisíveis.
02/12/2008