Quando a tragédia nos abate

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1. Entendendo o contexto.

 Quando vemos nos noticiários a desgraça alheia não imaginamos que tal fato seja corriqueiro em nosso território. Pensamos um pouco na dor do outro, mas viver a dor e sentir o desejo na alma de orar e fazer alguma coisa que mude a situação do próximo é outra estória.

 Podemos por uns momentos ficarmos consternados com a tragédia alheia, mas rapidamente somos trazidos à nossa realidade e percebemos que tudo ainda está no nosso controle e ainda podemos continuar fingindo que somos bons, pois de alguma forma choramos com os sofredores, mesmo quando o sofredor não tem o conhecimento do nosso nobre sentimento por ele.

 Chorar com a dor alheia é fácil, difícil é sorrir com o sucesso do próximo, principalmente quando a nossa caminhada está estagnada, ou até decadente. Enfim, a vida nos surpreende com as tragédias e normalmente não nos preparamos para este dia. A positividade e talvez a fé nas nossas obras, nos deixam com um sentimento ilusório de segurança, pois achamos que desgraça é coisa de quem está em pecado, desviado, ou em desobediência a Deus e também pensamos que Deus está em débito conosco, afinal fazemos tudo direitinho!

 A questão que quero levantar não é o motivo da desgraça, mas sim o que fazer na desgraça, pois é certo que o nosso posicionamento diante da tragédia pode mudar a tragédia de maldição para benção.

Sabemos que Deus está no controle e é soberano, mas até a história se fechar e por fim darmos glórias a Deus, passaremos algumas vezes pelo vale da sombra da morte e sentiremos realmente a sombra da morte sobre nós.

Este tema é atraente, pois só quem passou pela tragédia sabe o quanto é difícil manter a fé nestes momentos, pois as circunstâncias mostram uma dimensão caótica e irrecuperável, onde a palavra do dia é se rebelar e blasfemar contra Deus, se revoltando pelo tempo que foi investido na obra de Deus e no serviço ao próximo.

Teremos como base o texto do evangelho de Lucas, no capítulo 10, versos de 25 a 37. É uma estória conhecida e já foi vista por vários ângulos, certamente neste que queremos refletir, mas mesmo assim entendo que podemos tirar ensinamentos para quando na desgraça, não nos deixarmos abater profundamente por ela, pois abatidos seremos, mas não por completos e vencidos.

O texto nos faz refletir tanto no objeto da misericórdia, quanto naquele que pode ser o portador da misericórdia, ou seja, temos um meio defunto e algumas pessoas que caminham sem enxergar a morte e a dor de um miserável que jaz a beira do caminho. Temos um meio defunto e algumas pessoas que caminham sem perceber a necessidade urgente de socorro, para um moribundo que não tem a capacidade de pedir socorro, pois foi tolhido de suas faculdades e destituído de sua integridade física, ficando esperando a morte ou a vida. Quem chegará primeiro ao seu encontro? Certamente isto dependerá da atuação de outro, ficando o objeto da misericórdia alvo das boas obras, quer sejam bons ou não seus feitores, bem como da indiferença mórbida por parte de quem teve em suas mãos fazer o bem e não o fez, quer sejam bons ou maus os que se eximiram da responsabilidade.

2. Deus nunca deixará que sejamos abatidos por completo

Esta afirmativa por si mesma já serve de consolo para aqueles que estão em situação que independe da sua colaboração à mudança. Deus é fiel e não permite que as tragédias tenham o total controle sobre nós, eliminando por completo a vida, a esperança, o escape. O homem foi deixado semimorto, mas debaixo das mãos de Deus o impotente está mais para a vida do que para a morte. Pois embora o sacerdote e o levita , não percebendo a necessidade do caído, Deus levanta um outro, de quem não se espera nada, para servir de escape para este que foi esquecido por quem representavam o nome de Deus.

O samaritano é o exemplo de escape divino que não se submete a lógica humana, sendo assim quem está caído necessita entender que não lhe compete avaliar o método usado por Deus, pois ele usa quem quer para executar a sua obra. Na busca do necessitado o Senhor confronta os paradigmas, mostrando que o seu cuidado transcende o esperado e lógico, buscando de maneira contundente o objeto do seu amor: o homem caído entregue ao caos e a desgraça, para que a glória nunca seja humana, no levantar, e sim de Deus.

3. Poupe as forças, não crie expectativas confiando no socorro humano.

É complicado quando se está à beira do caminho, sem forças para levantar, pois quando abatido, aviltado, humilhado, segregado, esgotado espiritualmente e percebendo pessoas sadias andando para a casa de Deus, dá vontade de gritar, mas a dor maior é a indiferença, ao verificar que a sua família espiritual está lhe virando as costas.

Neste momento o desejo de se levantar pode ser motivado por um comportamento de revanche, passando a entender que a desgraça tem como agente a indiferença do próximo. Passamos a esquecer do verdadeiro algoz, projetando nesses que continuam as suas trajetórias, a responsabilidade que não lhes compete executar, pois a misericórdia está submetida a uma condição que não é universal: o amor.

Esta é a questão, pois quem passa ao largo se vê no direito de não fazer nada por uma obra maior: a casa de Deus.

Por outro lado pode-se encontrar a alegação que a indiferença não é indiferença e sim respeito à dor do outro, que optou por entregar-se a dor sem pedir socorro. Enfim, quem fica caído está sofrendo por que quer, se a sua permanência na queda é decorrente da dor sofrida pela incapacidade alheia de entender, socorrer ou até perceber a sua dor.

4. O socorro sempre vem e pode vir de onde menos esperamos
O nocaute talvez seja a única maneira de estarmos em condições para receber o socorro. Quem passou e se compadeceu foi o Samaritano, uma espécie de degenerado cultural, para o Judeu. Receber ajuda de quem entendemos não ser de Deus é complicado quando se está rotulando o que é de Deus. Por isto a queda se faz necessária para receber o socorro e por fim o tratamento, pois se estivermos no controle das faculdades mentais e físicas, é certo que haverá alguma rejeição diante do tratamento de Deus. Seremos tentados a optar pela ação divina segundo a nossa perspectiva e nunca pela de Deus.

Jesus mostrava ao intérprete da lei que ao próximo se deve amar independe de religião e cultura, basta ser gente! Portanto precisamos entender que quem socorre gente é gente não cabem neste momento conjecturas, elucubrações e desculpas esfarrapadas para passarmos ao largo. A missão de cuidar do outro é de todos, ou melhor, de quem avistar primeiro!  Se não fizermos aquilo que Deus concedeu a sua igreja fazer, outros estarão no caminho que a igreja deixou de percorrer, pois a mesma se perdeu em si mesma, com seus cultos, louvores, adoração e doutrinas.

Portanto somos ignorantes se acharmos que o socorro do necessitado está apenas nas mãos dos ditos capacitados, mas sim naqueles que são capacitados pelo amor de Deus para cumprir a sua obra.

5. É necessário entender que o tratamento pode ser demorado

Faz-se necessário não se desesperar com a demora do tratamento, pois o tempo é de acordo com as feridas que serão fechadas, cuidadas, acompanhadas até o ponto de cessar a inflamação. Às vezes acontece uma mudança geográfica a um local nunca antes conhecido e encontrar pessoas que estarão trabalhando em prol do nosso restabelecimento, embora não sejam íntimas, chegadas, mas estarão comprometidas com a restauração. Assim aconteceu com o homem que foi atacado no caminho. Ficou a mercê de estranhos por um longo tempo, experimentando o cuidado de Deus com a sua providência.

Quem é tratado, apenas recebe tratamento, não pondera a benção recebida, mas vê nas mãos estranhas a mão de Deus, que não desampara seus filhos deixando-os à beira do caminho, sem esperança, provisão e direção. Somos conduzidos por ele a um local seguro e neste lugar entenderemos que Deus é Deus de provisão.

Podemos ser tratados bem longe de tudo, mas bem dentro de nós, onde ninguém pode chegar conscientemente a não ser se conduzido por Deus e certamente ele através do seu espírito, não nos deixará sair até que venhamos a recobrar integralmente a consciência e perceber quem é o verdadeiro agressor, com também o nosso benfeitor.

6. Aprenda a não buscar culpados, pois se pode acusar inocentes e benfeitores.
7. 
Quando o samaritano foi embora, deixou certa quantia para o dono da hospedaria cuidar do moribundo. Com os sentidos abalados podemos avaliar mal a situação e entender que o samaritano que estava no local onde o homem foi encontrado tenha alguma coisa a ver com os assaltantes, pois a visão deturpada pela dor pode interpretar o bom como mal e aquele que está apenas executando uma tarefa, ou seja, o homem da hospedaria como benfeitor.

É importante não buscar culpados pela tragédia, pois isto nos leva a uma área perigosa, onde os maus podem passar por bons e os bons e bem intencionados por maus.
O silêncio é uma grande ferramenta, pois aquilo que falamos neste momento de dor fica marcado como ferro quente na memória dos ofendidos. Depois para mudar o dito é complicado, pois normalmente quem está doente da alma, enferma com palavras acusadoras, outros que não pediram para ouvir seu grito de revolta, ódio e dor.

Nada como um bom par de joelhos no chão nesta hora, colocar a boca no pó e clamar a Deus para que tenhamos a maturidade de estar com os nossos inimigos debaixo dos nossos pés, mas sem a intenção de quebrar-lhes o pescoço.

8. Perceba sempre a mão de Deus no controle, mesmo se o benfeitor esteja mais interessado na tarefa que em você.

Dar graças por tudo é uma arte, murmurar é o esperado diante da desgraça, portanto precisamos aprender a valorizar as bênçãos, por menores que apresentam ser.

Ser bem tratado é importante, mas quando somos tratados por Deus independente da mão que acaricia, precisamos sentir o cuidado e o amor do Senhor. Este homem quando acordou viu apenas alguém que cuidava dele, não sabemos a sua origem, se era bem situado socialmente e se as acomodações eram simples, mas a tarefa era complexa: cuidar das feridas de um estranho.

Antes de questionar a benção se faz necessário agradecer a mesma, pois por pura misericórdia o Senhor nos resgatou e nos deu uma família espiritual. Portanto é neste lugar que devemos ser tratados, percebendo na mão que nos abençoa, a mão daquele que não se ausentou sem deixar a nossa integridade e segurança largadas a beira do caminho, mas investiu em nós, mostrando que temos valor.

Quando a tragédia nos abate devemos entender que nunca ficamos desamparados, apesar da nossa inconsciência, feridas e dor.

28/09/2006



Comentários


// postado em 05/10/2006 às 15h37
Sr.Carlos,li e achei interessante suas colocações a respeito da desgraça humana. Gostaria de deixar uma reflexão sobre o referido assunto: " será que não somos nós mesmos responsáveis pelos acontecimentos de nossa existência? Será que a vida(Deus) não está tentando nos fazer crescer, amadurecer e reconhecer que somos sós responsáveis físico e psicologicamente por nós mesmos? Enquanto culpamos alguém por nossos fracassos e erros ou criamos expectativas a respeito de alguém, é porque ainda não crescemos, somos crianças existenciais . ? "

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