O paradoxo se caracteriza pela aparente falta de nexo ou lógica, chegando à contradição. Algumas idéias, em contextos, que caminham na contramão do esperado. Um pensamento ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, ou desafia a opinião concebida, à crença ordinária e compartilhada pela maioria.
Quem ama, espera a lógica, que não deva matar, portanto o amor e o ódio são sentimentos paradoxais como a fé e o medo. Espera-se de quem é santo a ausência de tudo o que for profano; do justo nenhuma relação coma a impiedade e da igreja apenas a manifestação da Glória de Deus.
Algumas pessoas se espantam com o comportamento de alguns ditos santos e se decepcionam com o corpo, que é a igreja, por isto procuram outro lugar onde possam conviver apenas com pessoas perfeitas, sem nenhuma contradição ou imperfeição. Nesta tentativa estão de igreja em igreja e nunca se estabelecem em lugar nenhum, pois o espírito crítico, em relação ao outro, torna estas pessoas visitantes da casa de Deus e lógico que como todo visitante estará sempre atento aos erros do grupo, pois afinal de contas estão fora do grupo, não se vendo como partes do todo.
Quando percebemos a igreja o local da manifestação da Glória de Deus e que esta manifestação encontra o ser humano em processo de santificação, entendemos que o pecado e a impiedade estarão presentes tanto quanto a Glória de Deus, pois para isto ela existe, seu intuito é dar vida ao que está morto, o que não deixa de ser um paradoxo.
Porque dar vida ao que está morto, não será lógico dar vida a quem pode apreciar a vida, por já ser um portador da vida? O morto não tem solo para a proliferação da vida, e nem sabe o que é vida, pois ela não encontra nele a fertilidade para o seu desenvolver, como também ele não possui a faculdade mental para entendê-la. Para que dar dinheiro ao louco? Para que amar quem tem prazer no ódio e na vingança?Porém Deus é diferente, operando um milagre em meio ao paradoxo.
Digamos que a igreja é assim. Um ambiente onde encontra pessoas que de certa forma não merecem nada de bom, pois não possui capacidade de entender aquilo que recebem. São pessoas doentes e que de uma forma agrediram a Deus com suas atitudes e não podem mudar por si mesmas, pois estão contaminadas por uma espécie de doença, a qual identificada como pecado, sendo contagiante, pois passa de geração para geração.
Estas pessoas se reúnem em um local e passam a ter algo em comum. Em primeiro lugar possuem a fé e depois os objetivos, portanto a igreja é local da manifestação da Glória de Deus e também através dos relacionamentos, a revelação das identidades problemáticas, pois nesta diversidade objetiva se estabelece os grupos comunitários.
A fé torna estas pessoas, que estão doentes por natureza, movidas por uma esperança, que transcende o natural, vencendo as situações apresentadas com os seus impossíveis. Estas pessoas estão agora irmanadas em um objetivo, que é levar a sua experiência, com o seu Deus, a todos que ainda não o conhecem.
Neste ponto percebemos na coletividade que alguns, com algumas falhas, serão alvo de contestação de outros, com outras falhas, e que esta visão julgadora se manifesta também do lado de fora, por aqueles que não se vêem como parte desta comunidade. Enfim, o juízo reflete apenas a realidade excludente e nunca a convergente, que não busca antes de julgar o outro, avaliar a si mesmo e entender que possue falhas em áreas diferentes, e que não o exime da culpa diante de Deus. Este fato iguala àquele que julga tornando-o tão merecedor quanto o outro da condenação e demérito diante das benesses de Deus.
Partindo desta idéia, a qual ninguém tem a credibilidade de se julgar melhor do que o outro, tentaremos refletir na realidade da igreja, que abriga o paradoxo, do santo e do iníquo, do puro e do impuro, do bem e do mal, do justo e do injusto.
Não quero com isto prover legalidade para o pecado e a rebelião, mas sim perceber que ambos estarão convivendo na comunidade onde se manifesta a Glória de Deus, sem com isto encontrar demérito no corpo que almeja a comunhão, mas sim naqueles que desprovidos do Espírito, tentam contaminar inutilmente, àqueles que Deus tem uma obra estabelecida.
Como base do nosso tema, estaremos inferindo no Salmo 1, pois já no verso 5 verificamos que há impiedade na congregação dos justos, segundo a idéia do salmista. Os pecadores não prevalecerão na congregação dos justos. Portanto a possibilidade do perverso e do ímpio é admitida, no seio da igreja. Não quero com isto dizer que este comportamento é o esperado do justo, mas sim daquele, quando na congregação dos justos, comporta-se não demonstrando através das obras, um caráter trabalhado por Deus.
O problema do relacionamento com este tipo de pessoas é que somos impulsionados a julgá-las, e o juízo humano é falho, apesar das obras más, não temos autoridade, na igreja de acusar ninguém de malignidade. (Mat 71-5)(Rom 2:1-4), pois é o próprio Deus quem julga (1 Cor 4:5).
Fica complicado conviver com alguém que rema ao contrário, que vibra com o gol do adversário, mas veste a mesma camisa que vestimos. Precisamos entender que a luta é espiritual ou é entre homens. Ou colocamos estas pessoas diante de Deus em oração, ou vamos travar constantes batalhas contra homens. A princípio não podemos dizer quem é trigo e quem é joio, mas Deus sabe. (Mat 13:24-30)
Alguns grupos segundo a teologia Paulina (1 Cor 5;5) interpretam que é necessário julgar alguns tipos de comportamentos dentro da igreja, encontrando embasamento nas palavras de Jesus (Mat 18:15-17). A questão é se podemos afirmar que nunca cometeremos o tipo de torpeza que estamos julgando no outro? Posso entender também que o assunto colocado por Jesus se refere a uma espécie de demanda entre eu e meu irmão, onde me sinto prejudicado e procuro deixar às claras o equívoco por ele suscitado? Penso em Jesus disciplinando a mulher adúltera (Joa 8:11), ou a João Batista ( Mat 11:1-6), pelo contrário Jesus exalta João, pois entendia a situação que João vivia no cárcere ( Mat 11:7-13), ou a Pedro quando este o negou, ou a Judas quando o traiu, enfim Jesus motivava as pessoas a uma mudança de comportamento e aos que lhe eram íntimos, ele falava diretamente, mas aos de fora falava por meio de parábolas.
O ponto é que se deixarmos o elemento sem punição pode-se levar a igreja a um comportamento sem compromisso diante de Deus e da sua palavra, pois onde a impunidade é estabelecida o caos é a conseqüência. Se eu, andando corretamente tenho o mesmo salário daqueles que não andam, então porque ser correto? Certamente a impunidade fomenta a rebeldia e desrespeito às regras e autoridades. Este pensamento é lógico, mas quem pune quem corrige e quem castiga é Deus (Apo 3:19)(Heb 12:4-8).
Por outro lado a punição pode gerar também um comportamento de impecabilidade na comunidade, onde a sua teologia deixe de se basear na misericórdia de Deus, por nós sermos pecadores e passa a se basear na comunidade dos perfeitos e dignos de honra, glória e louvor de Deus, por seus comportamentos certinhos, por isto podem julgar os imperfeitos.
O verso 4 do salmo 1 por outro lado me dá a certeza que o pecador não perdura na congregação dos justos, pois são como a palha que o vento dissipa. Podendo até contaminar por um tempo, mas não prevalecerão no juízo, ou seja, na sua palavra e influência, certamente será mostrada toda a sua hipocrisia e dissimulação, tendo como porto final à morte. Certamente há caminhos que para o homem parecem direitos, mas ao fim são caminhos de morte e dentro da congregação não poderia ser diferente.
O verso 1 do salmo 1 nos dá um conselho inteligente para ultrapassarmos as divergências e desejos de justiça. Precisamos aprender a ponderar aquilo que ouvimos, pois a maneira que ouvimos, influencia àquilo que pensamos. Portanto aquilo que falamos e por fim aquilo que obramos, estão intimamente ligadas as coisas que mantemos ecoando em nossos corações e mentes. Precisamos receber conselhos qualificados, pois nem todo aquele que diz senhor, entrará no reino de Deus. Estar na casa de Deus não faz do homem um adorador de Deus. Falar de Deus não implica conhecer a Deus, portanto não podemos nos deixar levar pelas aparências e fugir da ambiência que contraria os conceitos da palavra de Deus. Nestes lugares Deus não é aquilo que se interpreta segundo uma teologia de obediência, temor, santidade e adoração, mas um ser que não se importa em confrontar o homem com o pecado, pois para estes, pecado é puro legalismo, pois a sua teologia gira em torno do prazer que o deus ventre, pode lhes proporcionar.
Mas não é assim o justo, este se alegra em fazer a vontade de Deus, encontrando na sua palavra o seu prazer. Este comportamento do justo proporciona-lhe a capacidade de ser uma manancial até em lugares secos. Não dependendo das circunstâncias e daqueles que manipulam pessoas para proveito próprio. O justo percebe o que transcende, por isto é comparado a uma árvore plantada junto a correntes de águas, ou seja, possui uma força que o revigora, não se sujeitando a dependência humana, e sim recebendo de Deus a seiva da sua motivação.
Este comportamento sugerido pelo salmista nos inspira a não firmarmos em homens a nossa fé, buscando sempre direto da fonte a nossa capacidade de trabalho. Leva-nos também a uma busca de santidade que encontra respaldo na palavra de Deus e no relacionamento sadio, dentro da casa de Deus. Entendendo que os desvios são conseqüências de um comportamento que desconhece a natureza santificada e a contaminação, fruto de uma teologia que não procede do Deus da palavra.
Igreja local de paradoxo, onde conforme a arca de Noé encontra os mais diversos tipos de cheiros, uns até insuportáveis de se conviver, mas ainda assim, o lugar mais seguro da terra, onde Deus provê o socorro, principalmente em dias de calamidade. Apesar das incoerências e paradoxos, ainda é a igreja o local onde percebemos o ser humano em sua integralidade, sem máscara, em um todo, formando um corpo tratado em unidade, comunhão e principalemte nos relacionamentos.
A igreja é o local da manifestação da glória de Deus, mas também o local das crises, dos paradoxos e da convivência desafiadora que é ser uma grande família no sentido espiritual, com sua oficina estabelecida na busca da convergência superadora das diferenças, que nos impulsionam a não nos vermos como irmãos.
21/04/2006