A ilusória realidade do ser

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Buscando na memória nas partes mais remotas do consciente, percorro uma geografia rica em imagens.Vislumbro paisagens e sons, cores ainda sem significado e por fim a mansidão de um colo que me abriga, de uma mão que me acaricia, de uma boca que me beija.

Sou apresentado a pessoas que parecem me conhecer e alegram-se com a minha existência. Eu ainda não sei quem elas são e muito menos o que eu sou, apenas percebo que aquilo que faço encontra receptividade naquilo que eles demonstram ser, sou moldado devagarzinho àquilo que em mim busca se entender.

Não entendo o que falam, mas eles entendem o que preciso e de maneira natural, vai se formando uma espécie de comunicação, onde as minhas expectativas vez ou outra são preenchidas e quando não, o meu choro se estabelece até o momento do entendimento que o socorro não vem.

Tenho medo, pois sou sozinho, mas não sei ainda que este é o motivo do meu choro, pois de fato não me encontro só, mas não faço parte de ninguém, portanto vou percebendo a realidade que me cerca e procurando naqueles que se aproximam, o sentimento que me traz segurança. Em um momento atrás eu vivia em um mundo diferente, envolto em água, flutuando ate que o espaço apertou e de uma maneira abrupta fui expelido do meu aconchego, encontrando agora um novo universo e a liberdade que ainda não sei entender, por isto mexo os meus bracinhos, sem a barreira que me impedia, posso agora até rolar.

Não entendo ainda o que é pensar, só percebo que o que vejo, se repete vez ou outra e nestas repetitividades se estabelece o comparar. Sou motivado pelo sorriso, pois a novidade que me rodeia me trás sentimentos que não sei explicar, sou como alguém impressionado, pois qualquer coisa que gire, ou se mova, ou mesmo parada, é objeto de minhas comparações, arquivo em minha mente um universo de imagens e sensações referentes às mesmas. Parece que tudo se apresenta para mim, parece que o mundo espera apenas que eu abra os olhos, para vir ao meu encontro, percebo nisto tudo, uma grande brincadeira, que acontece a cada dia, centralizado em mim.

Algo estranho aconteceu, eu não sei explicar, mas de repente as coisas começaram a ter significado e descobri que os sons por mim emitidos através da fala foram representando aquilo que eu queria entender.O estranho é que quanto mais eu me faço explícito, menor se torna, da parte dos outros, o interesse pelas coisas que eu faço e com o tempo vai aumentado o desinteresse também pelas palavras que eu pronuncio.

Aprendi a falar e junto com a fala a impossibilidade de entender a mim mesmo e as coisas que estavam ao meu redor. Quando eu não me entendia, percebia que tudo girava em torno de mim, mas depois que passei a entender as coisas que se me apresentavam, descobri o quanto de insignificante a minha vida poderia ser se eu não procurasse novamente entender as coisas que as pessoas falavam antes de aprenderem a se comunicar umas com as outras.

Enfim, aprendemos a verbalizar palavras que nunca poderão expressar aquilo que realmente queremos falar, pois o universo quando nos foi apresentado, trazia em suas sensações, um vocabulário muito mais rico, que a nossa linguagem não pode comportar. Pois as nossas referências eram de alguém em desenvolvimento, ser mutante, criado para mudar, portanto preparado para as mudanças e novidades. Hoje nos limitamos à mediocridade existencial, lutando em nossa mente para entender aquilo que um dia nos foi motivo de alegria, mas que agora pela nossa impotência, diante de tanta beleza, nos é motivo de choro, pela incompreensão. Portanto nos limitamos simplesmente a dizer: quando eu nada sabia, o saber me era apresentado, agora que penso que sei, só sei que nada sei, enquanto não entender realmente quem eu sou.

Como introdução acho que está bom para aguçar em nós o desejo de descobrir a nós mesmos, pois nesta descoberta certamente está a resposta de várias interrogações.

Percebemos então que aquilo que somos passa desapercebido em nossa existência, pois a limitação da fala, diante das comparações que são influenciadas em nós, por aqueles que encontramos quando aqui chegamos, despreza um universo em formação, no ser que ao nascer, deixa de ser o que é para ser aquilo que se está estabelecido no meio. Somos formados a semelhança cultural daquilo que não somos, mas sim daquilo que é projetado e esperado de nós. Complicado? Não, perceba o seguinte, se eu nasço em uma sociedade cristã, sou formatado ao cristianismo, se nasço em uma sociedade muçulmana, judaica e assim por diante, recebo informações que aceito como verdades incontestáveis, embora quando criança, não poderia sustentar nenhum argumento, mas vou alicerçando-me em um conjunto de verdades aceitas como padrões, pois o meio me diz que é assim.

Onde está a realidade do ser? Naquilo que não tivemos a possibilidade de inferir em função da gama de informações que em nós foi colocada, e que não podemos mais adentrar, pelo menos é o que se percebe pelo campo das idéias! Percorramos então, um outro nível de idéias isenta da corrupção humana, em um universo que transcende a ambos, ou seja, através de uma mente superior, não submetida ao senso comum, uma mente sem preconceitos ou conceitos firmados, a utopia de uma mente livre!

Somos cercados por uma série de paradigmas e certamente eles são importantes na formatação da nossa personalidade, que de uma forma ou de outra refletem através do nosso caráter. Àquilo que eu sou eu ainda não sei, mas aquilo que eu demonstro ser está escrito através dos meus atos, das minhas palavras e dos meus relacionamentos. Percebo então que uma mente livre não existe, pois todos possuem influência de uma ou outra ideologia, que estabelece uma espécie de instituição interiorizada, fazendo com isto a familiarização na formação dos grupos. Somos por natureza políticos e no estabelecimento da minha identidade sempre estará implícito a destruição de outra, pois aquilo que eu sou, só pode se firmar, quando aquilo que o outro é, encontra em mim o seu referencial de ser. Mas quem eu sou, se somos movidos por um inconsciente coletivo de aspirações sociais?
Voltamos então a esta mente superior que é a fonte das respostas, pois a mesma é isenta do nosso senso comum, que é contaminado pela nossa corruptibilidade e influenciado pela política.

Neste ponto podemos nos apegar aos iluminados que se levantam na história da humanidade. Grandes homens que de uma maneira conseguiram com suas idéias e obras, marcar as suas gerações. Contudo os mesmos, apesar de todo o brilhantismo, também se encontram corrompidos em suas interpretações, pois também possuem em si, a mesma natureza que possuímos, apesar do seu brilhantismo em enxergar a realidade por um ângulo superior.

Entendendo a origem humana pelo plano de sua criação, chegamos ao gênesis, onde Deus de uma maneira singular cria o homem. Notamos que os demais seres passaram a existir pelo poder da palavra de Deus, mas o homem é obra das mãos de Deus, segundo a sua imagem e semelhança. Deus entendia que o poder, o domínio, deve ser compartilhado com alguém que possua a sua confiança, pois temos em nós particularidades que são dele, portanto podemos entender a responsabilidade da missão e por sermos sensíveis
às suas características, dar continuidade ao iniciado por ele. Logo a origem do ser se estabelece no projeto de uma criatura semelhante ao seu criador, que nasceu com uma missão estabelecida, um ser destinado a dominar em um contexto preparado de antemão. Um ser que entende na criação e na avaliação daquilo que criou, sua semelhança com o seu criador. Fomos criados para a produtividade, criatividade, mudando através das nossas mãos a geografia e zelando pela sua manutenção.

Outro ponto da descoberta do ser se estabelece quando entendemos que não somos um corpo, mas um espírito que possui um corpo. Fomos formados do pó da terra e soprado em nós o hálito de Deus, que é o agente mantenedor da vida. Portanto as nossas necessidades básicas não estão no campo do ter, mas do ser, pois o prazer se estabelece nas coisas que preenchem o nosso espírito e não nas que preenchem as necessidades do nosso corpo. Portanto entramos em crise quando perdemos os referenciais de utilidade e necessidades. Nascemos com um objetivo nesta terra, mas que não pode ser preenchido como prazer em nós, pois a nossa essência não é terrena.

Entendendo então que estamos aqui, mas não somos daqui, haja vista que somos um ser espiritual, que temos objetivos determinados aqui, mas os mesmos não podem ser a fonte supridora das nossas necessidades, entendemos que para descobrirmos, quem somos e a nossa missão, precisamos nos voltar para o nosso criador, pois nele está a fonte de nosso ser com todas as respostas.

Estaremos agora adentrando no campo da teologia, que é a infrutífera tentativa humana de interpretar o seu criador. Sim infrutífera, pois se o mesmo pudesse ser compreendido, não falaria de si mesmo, "eu sou o que sou". Deus não se revela na sua essência, mas na sua obra. Assim começa o gênesis, no princípio criou Deus os céus e a terra. Deus não dá um relato daquilo que ele é, mas daquilo que ele faz, portanto a teologia é um esforço humano, através da experiência pessoal, com a religião e com aquilo que se interpreta através das escrituras, do que entendemos que é Deus.

Deus entendendo que o ser humano quer se encontrar com ele, para obter a resposta de todos estes questionamentos, promove um encontro com o homem, por isto no evangelho de João no capítulo 1, verificamos que a luz resplandeceu em meio às trevas do desconhecimento.

O Deus que criou o homem se faz homem, pois o verbo que era Deus, habitou entre nós, com toda a sua plenitude em Jesus, pois a vida estava nele e por ele foram feitas todas as coisas. Ele veio trazendo em si a luz, pois ele é a luz de Deus, contudo nem todos o receberam, apenas aqueles que experimentaram um novo nascimento, um nascimento de Deus. Portanto de uma maneira especial, Deus agora capacita o ser humano a entende-lo, depositando em nós o seu espírito que nos permite entender a revelação de tudo aquilo que transcende para o mundo espiritual. Ele promove o caminho da revelação.

Entendendo o ministério de Jesus e o relacionamento dele com os seus discípulos, entenderemos a nossa essência, pois para isto ele veio: ser na terra o ponto de contato, onde os seres espirituais subiriam e desceriam, através de uma janela que antes estava fechada.

Quando Nicodemos foi até Jesus, a este foi declarado que lhe era necessário nascer de novo, nascer do alto, nascer de Deus. Jesus ensina em seu ministério que de nada adianta a teologia humana e os títulos, se ao homem não for dado à experiência de ser um adorador, um ser que conheça o seu Deus em intimidade e que em espírito busque a Deus. Esta dimensão de adoração não está vinculada a um povo específico, ou a um grupo de pessoas, mas aqueles que o Pai encontrar, portanto Deus deixa claro que nas religiões do mundo é o homem que busca a Deus, mas no Cristianismo é Deus quem busca o homem perdido. Muitos foram até Jesus, mas a maioria que esteve com Jesus, foi agraciada com a sua presença, pelo simples fato que ele os encontrou, não dependendo deles o encontro, pois o mesmo estava estabelecido na agenda de Deus.

Quando encontramos Jesus, a nossa ótica muda, não mais olhando para a nossa origem, pois reconhecemos a nossa identidade como filhos do Pai celestial e nos voltamos para o nosso destino. Entendemos que somos um ser que está em um processo de santificação com ele e, portanto, como o vaso nas mãos do oleiro, somos trabalhados a sua imagem e semelhança.

A ilusória realidade do ser acontece no desconhecimento de onde viemos e para onde vamos, bem como das referencias de necessidade e utilidade. Sabemos que viemos de Deus, obras das suas mãos e voltaremos para ele por intermédio de Jesus, obra da reconciliação, pois nele temos o direito a um novo nascimento e, portanto moldados segundo o caráter de Deus com seu sopro de vida.

Reorganizados em nossas necessidades existenciais, passamos a produzir em nossa potencialidade o esperado para a nossa missão aqui na terra. Homens e mulheres adoradores em essência, de uma divindade que não mandou recado, fazendo-se homem, sem perder a sua divindade, para que o homem, sem perder a sua humanidade e raciocínio, pudesse compreender muito além das palavras inauditas na interpretação humana, mas que aprendesse a entender a si mesmo e ao universo, movido apenas pela experiência motivadora da fé, pois na revelação da palavra, encontramos não apenas o verbo, mas o sentido, que o verbo humano não soube decodificar na formação da sua linguagem. O verbo de Deus, que reorganizou o caos; as trevas e a ignorância; encontramos enfim Jesus.

04/04/2006



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