O maior desafio da vida cristã é ouvir a voz de Deus. Sabemos que nesta experiência repousa um dos maiores mistérios da fé, pois melhor do que sacrificar é obedecer e para obedecer é necessário saber qual é a perfeita vontade de Deus para nós.Ou seja, vida religiosa não implica vida em Deus se não for reflexo de relacionamento, aprendizado e mudança de conduta, pela ação divina em nós.
Podemos viver buscando estar em acordo com a palavra de Deus, mas isto não significa que andar segundo a palavra, nos faz conhecedores, ou íntimos do Deus que se manifesta, também, em função da palavra.
Deus fala e isto é entendido no íntimo, não podendo ser comprovado por nenhum tipo de amplificador sonoro, pois a sua palavra está em acordo com cada coração, encontrando na sensibilidade humana, a inclinação de obediência, quanto à voz que entende ser sobrenatural, iniciando neste momento o seu grande desafio de vida: viver por fé.
Entendemos que Deus fala independente da boca, não se submetendo ao meio.O mesmo cumpre o seu propósito, pelas escrituras reveladas, onde, aliás, julgamos ter a verdade, pois estas nos foram apresentadas pelos profetas que falaram em nome de Deus. Não nos limitamos à palavra escrita, mas transcendemos as letras, que embora apresentem um esboço inteligível, escondem um universo a ser desbravado pelos corações inspirados à sua leitura, por meio da revelação do Espírito Santo. É preciso entender que independente das escrituras, Deus também pode falar, e como fala, pois aquilo que está escrito, para quem não sabe ler, é objeto de atenção, pois a fé vem pelo ouvir a pregação (Rom 10:17), e pelo perceber de maneira sensível a realidade que nos cerca (Sal 19:1).
Podemos ouvir Deus falar diretamente em nós (1ª Samuel 3:1-4, Atos 9:10), mas isto não exclui o relacionamento e submissão ao profeta, pois o seu ministério de proclamar a palavra, não o torna autor da palavra, ou mesmo acima da palavra, mas um elemento tangível nesta dimensão ao oráculo divino, que infelizmente não é revelado a todos (1ª Cor 12:28).
A função do profeta é anunciar através do espírito do seu Deus, os desígnios que cabe ao homem avaliar na sua teologia, principalmente se o seu Deus é o mesmo do profeta, se aquilo que o seu Deus manifesta através do profeta, passa pelo referencial bíblico, da palavra escrita, que confere com as palavras do profeta, o mesmo entendimento doutrinário experimentado pelos homens de Deus que escreveram a palavra.
A teologia é o reflexo da experimentação do divino pelo homem pecador, sendo assim não há teologia que seja completa, embora a fonte nos forneça a verdade plena, estaremos sempre aquém do entendimento daquele que queremos retratar. Por este ponto surge a doutrina, que expressa a sistematização daquilo que queremos definir, para um melhor relacionamento e entendimento, sem com isto podermos afirmar plenamente uma verdade, mas sempre aquela que nos molda, conforme a palavra escrita, revelado ao profeta de Deus.
Sendo assim a palavra revelada molda o caráter do ouvinte a um comportamento que está de acordo com o esperado de Deus e nunca ao padrão humano daquilo que entende ser de Deus.Complicado? Talvez, se criarmos uma divindade que nos seja submetida e faça as nossas vontades, sem deixar de ser Deus. Logo ou Deus é Deus ou Deus é homem, ou o homem se engana pensando que é Deus. Se Deus é Deus o homem deve estar em débito diante de tudo que Deus é, quer seja qualitativamente e quantitativamente, portanto ou nos inclinamos e o honramos, ou nos insurgimos diante dos confrontos inevitáveis, pois não podemos nos relacionar com ele sem entrar em um processo de obediência, pois nele está aquilo que necessitamos de melhor, embora ainda não saibamos o que realmente é o melhor para nós.
Neste desafio experimentamos a nossa fé, pois no dia-a-dia somos trabalhados a uma nova criatura, segundo o modelo original de Deus, antes da queda pelo pecado, enfim, para chegar ao lugar que não devíamos ter saído, aprenderemos através da palavra revelada ao profeta, a vontade soberana que deve ser recebida sem hesitação.
Gostaria de refletir na palavra de Josafá, em 2 crônicas, capítulo 20, verso 20, que convoca o povo a crer no Senhor, bem como ouvir os seus profetas para que possam prosperar.(Heb 13:7, 17).
A princípio concordamos que toda a nossa fé e devoção são para o Senhor, aliás, a fé vem dele e volta para ele, como vemos em Hebreus 12:2, portanto por causa de Deus precisamos ouvir a voz do profeta, não afirmando com isto que Deus está limitado ao profeta, para falar, mas que fala através do profeta com o intuito de nos fazer prosperar. Portanto ouvir a voz do profeta é uma condicional e não uma determinação, cabendo ao ouvinte perceber na sua teologia, onde termina a palavra de Deus e começa a voz do profeta e onde termina a sua rebelião e começa o relacionamento de intimidade com o seu Deus.
Quando se ouve a voz do profeta com o filtro da rebelião e desobediência não se ouve os conselhos de Deus, para a prosperidade, mas quando se ouve a voz do profeta com ouvidos ungidos, carentes da revelação, certamente encontraremos na verbalização do profeta, quer seja douto ou inculto, os arautos de Deus para a nossa vida.
Josafá foi rei de Judá e se fortificou contra Israel, o Senhor foi com ele, pois andou em seus caminhos, portanto Josafá tinha autoridade para aconselhar ao povo de Deus, pois ele estava no caminho. Só pode falar do caminho de Deus aquele que está no caminho, não se tem autoridade de Deus para fazer o povo prosperar quem não anda no caminho, não basta conhecer o caminho, ou saber que o caminho existe, é necessário caminhar com Deus e nesta caminhada receber a unção fresca, com a revelação (Sal 32:8, 9) específica para cada dia.
Judá e Israel estavam divididos, um povo rebelde e um povo obediente, mas os dois eram povo de Deus. Percebemos que em ambos os lados existiam profetas e a letra apesar de igual, era diferente na autoridade. A quem ouvir ou seguir?
A maior característica de um profeta de Deus é a ousadia e josafá era ousado em seu coração em seguir os caminhos do Senhor, pois colocou abaixo os postes-ídolos de Judá e da mesma forma os altares que eram levantados nos altos (2ª cro 17:6). Josafá sabia em quem cria e levava o povo à mesma fé e a mesma visão, ele era um motivador das massas.
Uma das características de um líder é a visão.Quando um líder vê adiante algo que ainda não aconteceu, é como um sonho que se faz na comunidade onde todos sonham juntos, até o momento da materialização do projeto, que Deus revelou para o líder e sua liderança.O povo se acalma e encontra segurança para exercitar a sua fé no seu Deus, pois aquele que ministra sobre suas vidas é antes de tudo um conhecedor na intimidade dos projetos do seu Deus.
Josafá preparou uma liderança para o manejo da lei do Senhor durante três anos e depois os enviou para ensinar o povo (2ª cro 17:7-9). Percebemos que o líder entendia que não adiantava profecia, pregação, palavra profética, em meio a um povo que não conhece a lei de Deus, pois ela é o referencial para que o povo venha a discernir o profeta como sendo de Deus ou não.Quem atesta a autoridade do profeta é a própria palavra de Deus, pois aquilo que o profeta prega é apenas reflexo daquilo que Deus revelou através da sua própria palavra.
O interessante foi que em função disto veio o terror do Senhor sobre todos os reinos das terras que estavam ao redor de Judá, de maneira que não fizeram guerra contra Josafá (2ª cro 17:10).
O ensino difundido para todo o povo, da lei de Deus, demonstrou para os de fora, uma manifestação de unidade e os de fora sabiam dos feitos de Deus no meio de um povo desunido, muito mais se o povo estivesse unido. A unidade no estudo da palavra colocou o terror do senhor no coração dos inimigos.Portanto estudar a palavra enfraquece o inferno e fortalece no mundo espiritual o povo de Deus.
Nesta hora, muita gente se aproximou de Josafá querendo demonstrar apoio ao seu ministério, pois de uma forma ou de outra sabiam que teriam proveito em manter com ele proximidade, deixando claro não querer nenhuma espécie de confronto e foram inteligentes por isto, pois Josafá se engrandeceu continuamente, tendo sob sua liderança grande número de gente de guerra e homens valentes.(2ª cro 17:12, 13).
Em um momento de sua vida Josafá fez aliança com Acabe, Rei de Israel, Acabe não era um líder abençoado por Deus e Josafá teve em risco a sua integridade física quando Deus lhe deu um livramento (2ª cro 18:28-32), posteriormente foi repreendido pelo profeta Jeú (2ª cro 19:1-3) e retornou ao centro da vontade de Deus, nomeando juízes para julgar as demandas de Judá.
Josafá era um homem que sabia o valor do trabalho em equipe, entendia a necessidade de discipular a sua liderança a um comportamento de relacionamento com o Senhor, pois o dia-a-dia da fé só tem valor quando encontra em sua trajetória a melhor de todas as companhias, ou seja, a própria presença do Senhor. (2ª cro 19:9)
Este tipo de atitude condiciona os liderados a não criarem expectativas quanto as suas próprias necessidades, pois a entrega precisa ser total, entendendo que o Senhor requer obediência, encontrando no discípulo fidelidade e inteireza de coração. As necessidades pessoais passam a ser as do Reino de Deus estabelecido através da história e convergindo para a realidade da experiência religiosa, onde se manifesta o poder de Deus, no crente que se coloca a disposição.
Josafá era um homem que quando intimidado, depositava a sua angústia na presença de Deus. Portanto não era um super-homem, ou melhor, supercrente que confiava nas suas possibilidades, mas pelo contrário sabia que o poder de toda a batalha é negociado no campo da fé, portanto apesar da realidade intimidadora, não se deixava vencer por ela, mas exercitava a fé e com isto alcançando vitória antes da batalha se realizar, pois aprendeu que com Deus não se tem negócio, ou barganha, mas sim lugar de refúgio e segurança, se nos mostrarmos como realmente somos, fracos, carentes e dependentes do seu socorro. (2ª cro 20:1-4).
Josafá conseguiu suscitar no povo o sentimento de unidade na adversidade, onde em função de um objetivo comum, que era a integridade de Judá, levantam um clamor e josafá intercede no meio da congregação trazendo a memória que Deus é soberano e todo poderoso, Deus de vitória e galardoador (2ª cro 20:4-7).
Por algum motivo Deus havia deixado o confronto com Moabe e os filhos de Amom, para este momento, haja vista que após a saída do Egito os orientou que os evitassem. (Dt 2:9) Por certo este povo descendente de Ló (Gn 19:30-38) sentia-se ameaçado (2ª cro 20:15), porém apoiou-se em ser uma grande multidão e esqueceu-se quem era o povo que iriam enfrentar.
Josafá neste momento entrou de uma maneira tão profunda no descanso de Deus, que simplesmente se prostrou em terra e o adorou (2ª cro 20:8), pois o profeta havia recebido a revelação do Senhor (2ª cro 20:14), de que a vitória era garantida no mundo espiritual, onde o sobrenatural da mão poderosa de Deus pelejaria pelo povo. Neste momento que antecede a batalha, josafá se levanta e declara a palavra profética, que o povo deveria crer no Senhor, para encontrarem segurança (2ª cro 20:20), mas também crer nos seus profetas para prosperarem. A revelação dada era ilógica em uma batalha, pois ficar parado e em posição de guerra é complicado. Estando armado, mas sem poder usar as armas é pelo menos uma determinação absurda em uma guerra, o soldado precisa confiar na palavra do seu comandante, pois se houver apenas um disparo, antes do planejado, pode colocar a vida de todos em risco. Mas a ordem dada era diferente, não deveriam olhar para as armas, ou para o exército inimigo, mas sim no Deus que os levaria para a batalha e ficarem sem temor, pois era o próprio Deus que lutaria por eles.
Josafá era um adorador que também louvava o Senhor e no momento do louvor, o Senhor estava fazendo a sua obra (2ª cro 20:22). Deus operou maravilhosamente e isto era o suficiente, mas percebemos que Josafá possuía memória curta e novamente faz aliança com quem não deveria (2ª cro 20:35) e novamente outro profeta o exorta (2ª cro 20:37), talvez por isto o povo se esquecia dos feitos de Deus e voltava aos rudimentos idólatras (2ª cro 20:4-33).
Acredito que o problema de Josafá estava relacionado com as suas escolhas, pois apesar de ser um grande líder, homem abençoado, e Rei, era inclinado a comprometer-se com pessoas não idôneas diante de Deus, ou seja, fazia alianças que de alguma maneira não lhe eram favoráveis, apesar de ser um favorecido de Deus.
Com isto finalizo declarando que devemos ouvir sim a voz do profeta, mas sem nunca nos distanciarmos do verdadeiro padrão que é a voz do próprio Deus (Joa 10:27), pois caso o profeta se desvie, não podemos dizer que Deus se esqueceu de nós, pelo contrário, ele sempre levantou profetas, como nós, homens sujeitos as mesmas paixões e inclinados as mesmas falhas( Mat 16:22, 23), para que o nosso referencial esteja sempre no Senhor, pois ele é o nosso alvo a ser atingido (1 Ped 1:16).
26/02/2006