A seguinte frase, certa vez me surpreendeu: onde todos mandam ninguém obedece, onde ninguém manda, todos querem mandar, onde não há respeito pela autoridade o caos se estabelece.
Acredito que o tema por si só não se esgota e certamente pode ser motivo de livros, livros e livros, mas gostaria de em breves linhas, atingir a sua raiz, trabalhando a crise, para entendermos a realidade do mundo natural, pois onde houver relacionamento e vida comunitária, a crise pode se instalar.
Aquele que necessita afirmar a sua autoridade, certamente não tem a sua posse faz muito tempo, pois a crise se estabelece no momento que alguém, que não a tem, requer para si a autoridade daquele que a detém. Portanto quem tem autoridade e não sabe usá-la, certamente será roubado no que se refere ao uso da mesma, pois autoridade não é um bem material, mas é objeto de cobiça antes da fundação do mundo.
Gostaria de iniciar o entendimento da crise, percebendo a soberba e suas ramificações, pois esta mãe odiosa nos faz sentar em um lugar que não é nosso por direito, onde o lugar do outro será o motivo da nossa inveja, e por fim a destituição daquele que não sabe que era adversário do usurpador. Sentar onde o outro deveria estar é alvo de cobiça e certo prazer que chega a casa da sensualidade e depravação, pois assim agem os animais quando marcam o território, urinando no local onde o outro se estabelece, assim o ser humano se regozija, prazeroso no lugar que não é seu por direito, mas que o assentar o embriaga como fera que quer a outra devorar.
Bens materiais não possuem em si mesmos a perversidade, mas a exacerbação do ter pode levar ao homem a uma realidade ilusória do ser, pois se pode pensar que muito se é por aquilo que se tem, quando na realidade aquilo que se tem pode nos tornar seres humanos mesquinhos e avarentos, insensíveis não apenas a realidade miserável dos outros, mas a nossa própria miséria e perdição, destituídos não apenas da glória de Deus, mas também da reverência humana, apesar do sucesso material.
A soberba referente aos bens materiais pode nos fazer pensar que as pessoas são coisas e que somos seus donos. Podemos agir como senhores dos destinos alheios, decretando a justiça sem ao menos reconhecermos o nosso próprio caminho, portanto cegos que determinam o destino de cegos.
Este comportamento leva a deificação humana, elevando-a a um patamar de um deus, pois mesmo sendo ser caído, se percebe com autoridade de decisão quanto à vida e a morte daquele que nunca percebe como semelhante. O problema de tudo isto é que o ser humano não reconhece a existência de um outro que lhe é superior e certamente se submeterá, ao mesmo, sem trazer a memória o valor da vitória passada, pois aquilo que se consegue por violência, certamente pela violência lhe será tirado.
A quebra da autoridade, a soberba e a arrogância se iniciaram no céu, onde Lúcifer quis estar no lugar de Deus, portanto a sua geografia é espiritual, algo que está firmado não apenas na psique humana, mas no espírito. Certamente não é apenas um desvio de caráter, mas também de uma espiritualidade enferma.
Percebendo o comportamento do querubim antes da queda, vemos que estar em uma geografia superior, próximo ao Deus eterno fez de Lúcifer alguém que certamente não era. Este problema ocorre entre os envolvidos com quem realmente tem autoridade, fazem os que não tem pensar que a proximidade os torna iguais, isto é complicado, pois quem tem não precisa afirmar que tem, mas quem não tem se vê obrigado a impor-se em função do desequilíbrio espiritual que é desencadeado no mundo natural. A crise acontece no sobrenatural, mas a percepção da mesma no universo habitado pelos seres naturais.
A restrição ao local onde a geografia da autoridade é exercida, promove a exaltação do eu que não entende relacionamento de autoridades sem intimidade, pois no uso do poder a caminhada pode coincidir aos homens, mas os locais de repouso e descanso são diferentes, onde quem é guardado em segurança sempre é o que é servido e nunca o que serve, portanto se faz necessário antes de se sentar à mesa esperar o convite do anfitrião, para não ficar envergonhado em público pela inconseqüente exaltação.
Concluímos que o poder intoxica os vitimados pela arrogância, pois raciocinam como maiores, diante de todos, que segundo eles, os ameaçam, pois complexados pela autoridade, não aprenderam a obedecer, pois só pode obedecer, quem percebe existir alguém que lhe é superior e estes, arrogantes, nunca se vêem inferiorizados, quer seja na cadeia hierárquicas institucional ou espiritual, fadados estão constantemente á queda.
A falta de memória quanto à origem faz do homem alguém pior, pois aqueles que sabem que vieram do pó, entendem que para o pó voltarão, portanto o estado transitório não nos torna diferentes, apesar da roupagem e status social. Somos seres decadentes e não podemos pensar que em nossa transição terrena encontraremos repouso diferente no porvir, em função daquilo que aqui granjeamos, nus viemos e nus retornaremos, sem nada daquilo que aqui nos fez superiores em relação ao outro.
Percebemos então o poder da palavra que cura e enferma, pois quando tomados pela arrogância, somos impelidos a um tipo de comércio que nos faz matar o outro pelas costas. Aquilo que falamos fica no inconsciente coletivo, projetando uma imagem negativa que faz da palavra o golpe mortal para o assassinato da imagem do outro. Percebemos a fofoca como um artifício do coletivo na comunicação dos seus medos, pois a idéia da ameaça une na difamação, pessoas intencionadas na destruição daquilo que impede a manifestação da sua caminhada no dia-a-dia. Pactos são formados, onde a violência é revestida pelo apelo da vítima inferiorizada. O compartilhamento lascivo da morte alheia, devido a esta quebra de autoridade nos faz mestres em dissimular estratégias assassinas, pois o uso da palavra, na propagação do conluio coletivo, será o agente destruidor da trajetória alheia, sem com isto encontrar um culpado para julgamento.
A queda do anjo de luz, querubim protetor, se iniciou quando o mesmo profanou os próprios caminhos, sendo assim este espírito difamador é o agente que envenena a própria trajetória daqueles que extravasam o desejo de destruição alheia.A pena divina é conseqüência do comportamento desapegado aos valores sublimes daquilo que se foi confiado, tanto no ter quanto no ser. Lúcifer que era motivo de inveja pelos seus atributos corrompeu-se pelos atributos, querendo tomar o lugar de Deus, portanto a quebra da autoridade parte também do princípio de esquecermos de onde recebemos a nossa autoridade e passamos a achar que somos competidores do doador.
Lúcifer foi consumido por um fogo destruidor, da parte de Deus, que destruiu toda a sua formosura, tornando-o cinza sobre a terra, ou seja, aquilo que todos fomos um dia. Como serpente rastejante se alimenta do pó da terra, que nada mais é que os dejetos que deixaremos em nossa caminhada, portanto hoje ele possui a dimensão de nossos erros. Por esta visão percebemos que a sua autoridade vem de nós e não de Deus. Se eu o alimento com a iniqüidade ele se fortalece, pois alegar ao diabo as iniqüidades humanas é tirar a responsabilidade humana por seus atos. Enfim a destruição que é a obra de arte satânica, pois ele veio para matar, roubar e destruir, não encontra em satanás o artista, mas no ser humano desconhecedor de um projeto de vida melhor do experimentado em uma caminhada sem Deus.
A quebra da autoridade nos estigmatiza, pois nunca mais seremos os mesmos, tal qual aconteceu com Lúcifer. A sua posição foi tirada, a sua beleza foi destruída, a sua sabedoria foi corrompida, a sua caminhada foi rastejante sem a possibilidade de alçar vôos novamente aos lugares espirituais diante de Deus. Passamos a ser interpretados pela ótica satânica, onde a parceria com o mestre da mentira e do erro, nos torna seres que reivindicam a autoridade alheia, sem nunca conquistar o direito de usufruir a própria.
20/04/2005