Na busca do entendimento do sofrimento, tentaremos refletir no desejo e as suas conseqüências, pois certamente está nesta raiz o problema da alma que sofre. O pecado nos faz sofrer, somos criaturas inferiorizadas, limitadas em uma dimensão e corpo, que estão contaminados por um mal universal.
Tentando entender as conseqüências deste mal e excluindo a origem do mal, pois a dor causada pela perda da natureza anterior, nos faz sofredores em uma realidade que não podemos nos conformar.
Desejar ou não desejar, querer e ser atendido, ou querer e sofrer as dores das aspirações frustradas, pertinentes a causas que em alguns casos não teremos como inferir a trajetória, ficando assim vítimas frágeis sem possibilidade de defesa.
No universo do desejo nem sempre o desejo é mal, pois o mal do desejo se estabelece em sua tirania sobre a nossa existência. Podemos viver sem aquilo que aspiramos, só não podemos viver sem aspirações, pois se assim o for estaremos sem objetivos e nunca chegaremos a lugar nenhum.
Entendendo que o desejo pode trazer felicidade e nem sempre usufruir a mesma nos faz dependentes e escravos da sua sensação, mas sim pessoas experimentadas em buscar a sua possibilidade dentro de um complexo de normas e regras que regem a nossa interpretação de bem e mal, de certo e de errado. Enfim, desejar é inevitável, pois até o desejo de não desejar é uma forma de desejo. Tentaremos refletir no ato de desejar e suas conseqüências, eliminando o comportamento de assepsias que encontram no desejo o motivo do sofrimento, deixando assim a possibilidade da felicidade pela desistência de desejar seja lá o que for.
Quando desejar é mau e devemos evitar a existência da sua realidade em nós?Em primeiro lugar devemos perceber se ele elimina de nós a possibilidade do não, pois se estamos submetidos a sua vontade, encontrando na sua realização a nossa escravidão, pois quando pensamos que estamos usando do mesmo, na realidade somos usados por ele.
Este comportamento compulsivo leva-nos a ira quando somos confrontados com o não, portanto o desejo é danoso quando pela violência atingimos a sua posse, ou melhor, quando somos possuídos por ele.
Percebemos que a sua castração nos impulsiona para baixo, deixando os nossos semblantes caídos e revoltados por não atingirmos a sua experimentação. Desejar pode também nos fazer caminhar pela estrada da desaprovação e rejeição, pois o nosso comportamento não mais se submete aos parâmetros entendidos como da normalidade coletiva, estaremos então enfrentando a todos como se fossem nossos inimigos, simplesmente por entendermos a castração do mesmo como a possibilidade que o outro nos impõe por nos confrontar com a sua normalidade em não se submeter a nossa carência a ser suprida.
Quem deseja compulsivamente, encontra inimigos aleatórios, dependendo da geografia e situação que submetido pensará conquistar. Portanto nos tornamos vítimas constantes do erro que jaz a nossa porta, nos esperando para conosco caminhar no nosso dia-a-dia, tirando de nós a visão correta daquilo que somos, pois nos torna dependentes daquilo que nos é inferior, onde na possibilidade real de senhores nos transformamos em escravos, sem o entendimento da nossa realidade diante do fato que nos é a fonte de prazer.
Esta atitude compulsiva nos faz caminhar por uma estrada de morte, onde a desaprovação e rejeição serão nossas companheiras. Passamos a não nos familiarizar com o coletivo encontrando continuamente portas que se fecham à nossa passagem, sem com isto legalizar publicamente o nosso juízo, encontrando apenas o descrédito diante das mais simples demandas que nunca conseguiremos nos desviar.
Desejar é transgredir um universo de aspirações que nunca conheceremos se não ousarmos caminhar, portanto se faz necessário além de estar no caminho, saber para onde se vai, pois no fim de tudo nada valerá apenas se na trajetória aspirada, aquilo que encontramos não nos tornar diferentes daquilo que as circunstâncias conspiraram para nos conformar.
Dor é reflexo de uma interpretação equivocada do prazer, pois aprendemos e crescemos nas adversidades, nas limitações, nas impossibilidades que nos fazem perceber que o desejo necessita de um senhor. Portanto que sejamos nós a dizer no final o quanto nos foi difícil admitir que não é tão prazeroso experimentar a vitória sem a possibilidade da derrota, da rejeição e dos infortúnios, não cabendo ao ser humano prever o final sem a intervenção de um senhor e não aos observadores contumazes que inferem com sua língua ferina a alma daqueles que anseiam por prazer em meio a um universo de decepções.
A vida em abundância é desejo, é transgredir, é ser possuidor de um bem maior que nos faz experimentar no dia-a-dia uma motivação que não depende das circunstâncias, do verossímil e da capacitação, mas nos leva a transcender na possibilidade do amanhã, das introspecções e confronto ao ser que ousamos investigar. Tímidos, mas caminhando adiante, envolvidos pela convicção de quando na sua presença, obtermos as respostas dos maiores desejos e projetos que ainda queremos experimentar e realizar, resgatando-os do mundo da imaginação, inconcebível por sua inalcançável possibilidade, pois a alma prostrada, desistiu da fé que é experiência divina e fonte de prazer.
Portanto a dor do desejo independe da alma humana evitar, pois o sofrimento é universal, mas a escravidão ao sofrimento e ao desejo é atitude para reflexão, cabendo ao ser humano dominar ou ser dominado. Resta-nos a esperança da liberdade que apenas no Senhor podemos provar, pois fomos chamados para uma vida no Espírito e onde o mesmo controla o ser, encontramos um universo de vida, liberdade e consolação. Investigar a motivação deve ser uma prática, pois sabemos que aquilo que nos dá prazer no momento pode ser no futuro a razão da nossa desgraça e viver uma vida sem prazer é desgastante, mentiroso e hipócrita, pois estaremos chamando de benção aquilo que é pecado e atribuindo a Deus aquilo que é reflexo do nosso egoísmo.
02/03/2005